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Polarização política no Reino Unido: como voltar a conversar

Grupo diverso de pessoas reunidas ao ar livre a planear num grande mapa colorido sobre uma mesa de madeira.

Numa quinta-feira chuvosa em Leeds, fiquei a ver dois vizinhos discutirem junto aos contentores da reciclagem.

Tudo começou com vidro contra plástico e descambou, com um suspiro e um encolher de ombros, para o Brexit e para “o que pessoas como tu nunca entendem”. Não houve gritos. Apenas duas mandíbulas a apertarem, duas costas a ficarem rígidas e, depois, o som discreto de garrafas a tilintar enquanto cada um recuava para a sua própria noite. Voltei para casa e fiz o que tantos de nós fazemos hoje: peguei no telemóvel e deixei a indignação de desconhecidos cair sobre mim, como um rádio mau que nunca se desliga. A sala pareceu-me mais fria do que uma hora antes. O estranho é que, no dia seguinte, continuamos a cruzar-nos na padaria. Continuamos a querer partilhar uma piada sobre o tempo. Então porque é que parece que o chão entre nós está a rachar - e quem é que, de facto, o está a coser?

A temperatura na sala

Antes, a política vivia no jornal que se esquecia no comboio. Agora mora no bolso, a vibrar às 23:42 com um título feito para acelerar o pulso. Esse gotejar constante de drama vai criando a sensação de que cada tema é um precipício e de que cada voto é um exame à nossa alma. Quando tudo soa a questão de vida ou morte, falamos menos e gritamos mais - mesmo que o tom seja baixo. A temperatura sobe e, de repente, um pedido de licenciamento ou uma regra sobre uniformes escolares vira uma guerra por procuração.

Há ainda outra camada. A pandemia esvaziou as ruas e encheu os fluxos online, e durante muito tempo a nossa praça pública foi um ecrã. As rotinas colaram-se ao deslizar do dedo, e aqueles pequenos travões sociais - alguém levantar a sobrancelha, alguém mudar de assunto - desapareceram. Na internet, os mais seguros de si parecem vir sempre ao de cima. Começamos a achar que os mais ruidosos são os mais numerosos, e isso ajusta o termóstato muito acima do necessário.

A força do sentimento de pertença

A política não é só um conjunto de medidas. Também é sobre com quem estamos - e sobre com quem não estamos. Aquele micro-prazer quando alguém concorda connosco é um disparo de dopamina tão real como uma dentada em chocolate. E quando a nossa identidade se enrola numa posição - máscara sim ou máscara não, estátuas ficam ou estátuas saem - largar a corda parece perigoso. A pertença é uma sala quente; sair dela pode saber a caminhar à chuva.

O emblema no casaco

Pensa no autocolante no portátil, na bandeira na biografia, no saco de pano no mercado. São sinais e atalhos, e o cérebro adora-os porque poupam energia. Só que também transformam a política num disfarce - e disfarces custam a tirar sem vergonha. É uma das razões pelas quais o meio-termo parece mais deserto online do que é, de facto, na tua rua.

Todos já passámos por aquele instante em que um amigo de quem gostamos diz algo que nos faz estremecer. Arriscamos o ambiente ou deixamos passar? A maioria escolhe a paz na sala em vez da pureza no feed e, mais tarde, conta a si própria uma história sobre porque é que o outro está errado. Ao longo de meses, essas escolhas pequenas acumulam-se, e a história endurece como estuque.

O modelo de negócio da indignação

Há um elefante na redação e no feed. A atenção paga as contas, e nada agarra a atenção como a sensação de que algo precioso está ameaçado. Plataformas e órgãos de comunicação fazem milhares de testes por dia, e os que “ganham” raramente são “aqui vai um compromisso ponderado”. A raiva mantém-nos a deslizar. O telemóvel a zumbir em cima da mesa não é neutro; é uma pequena máquina de jogo que nos recompensa com indignação.

Isto não quer dizer que existam maus atores por trás de cada publicação. Quer dizer que os incentivos contam. Se a responsabilização e a nuance não viajam tão longe como uma resposta rápida para humilhar, então uma correção discreta nunca apanha o erro barulhento. Quando a verdade chega, o meme já se formou e mudou para outra cidade.

Mapas vs. território

Desce uma rua comercial e faz as contas. A maior parte das pessoas está a comprar leite, a lidar com um carrinho de bebé ou a preocupar-se com uma conta para pagar. Depois, compara isso com o que achamos que “o outro lado” acredita, com base nos piores fios de comentários. Há uma diferença. A investigação tem um nome para isto - falsa polarização - quando exageramos o extremismo dos adversários e subestimamos o quanto coincidimos.

Os partidos afastaram-se mais em algumas matérias, e há pessoas para quem o impacto é mesmo real. Ainda assim, a maioria das pessoas é mais gentil do que a internet as faz parecer. Quando nos encontramos com contexto - e não apenas como avatares - muitas vezes descobrimos que a pessoa com o cartaz no jardim também foi quem nos emprestou uma escada. O território tem mais caminhos do que o mapa deixa adivinhar.

Onde as coisas melhoram

Um pouco por todo o Reino Unido, algumas comunidades decidiram que não iam ficar à espera de Westminster para que a rua voltasse a parecer normal. Depois do assassínio de Jo Cox, a fundação dela lançou o Grande Encontro, convidando vizinhos a sentarem-se em mesas compridas e a comerem bolo - nada de sofisticado. Em Oldham e Dewsbury, conheci pessoas que apareceram pelos brownies e ficaram porque um desconhecido se riu da mesma história. A política estava lá, suave, como um rádio a tocar na divisão ao lado. À segunda chávena de chá, os rótulos pesavam menos do que as receitas.

O grupo de investigação Mais em Comum tentou algo semelhante com clubes de conversa que juntam pessoas de lados diferentes e lhes pedem que troquem histórias pessoais antes de trocarem opiniões. Parece pouco. Não é. Nota-se o ar a mudar quando alguém te fala do trabalho por turnos do pai, ou do medo que sentiu quando a fábrica fechou. As histórias abrem janelas que a política pública, por si só, não abre.

As regras que funcionam

Os melhores projetos de aproximação têm regras quase à moda antiga. Nada de armadilhas. Telemóveis guardados. Perguntar por experiências antes de perguntar por crenças. As pessoas falam na primeira pessoa, não como representantes de um exército imaginado. Um pouco de cerimónia ajuda - crachás com nomes, um sino para marcar o começo, bolachas que se desfazem na boca e obrigam a parar e a sorrir.

Em Frome, no Somerset, onde independentes ganharam a câmara municipal e redesenharam as reuniões para favorecer a escuta, os moderadores são treinados para perceber o instante em que o calor deixa de iluminar. Acalmam a sala com uma pergunta: qual é a mudança mais pequena em que conseguimos concordar hoje? Depois escrevem-na num sítio visível para todos. Unir divisões é uma competência, não um milagre.

Acordos improváveis

Assisti a uma sessão em que um coronel reformado e uma estudante ativista do clima desenharam juntos um suporte para bicicletas. Houve piadas sobre botas e Birkenstock, e um silêncio desconfortável quando surgiu o número do orçamento. Depois ouviu-se o risco da caneta no papel e o coronel disse, quase para si: “O aço está mais caro do que estava, mas podemos aproveitar algum.” A estudante sorriu e ofereceu-se para recrutar voluntários. Foi só isso: uma micro-aliança, forjada em metal e suor, não em memes.

Pequenos rituais, grandes mudanças

Durante os confinamentos, ruas inteiras criaram grupos no WhatsApp que começaram como listas de compras e acabaram por se transformar em círculos de apoio. Muitos perderam força, como tantas coisas, mas os que resistiram mantiveram um ritual. Uma partilha mensal de ferramentas. Uma sopa de domingo na esquina. O cheiro a cebola a amolecer em manteiga, um pouco de vapor a embaciar os óculos e o prazer parvo de levar uma panela até um vizinho com quem nunca teríamos falado antes. A conversa contorna a política como um ribeiro a desviar-se de uma pedra, mas ainda assim transporta algo essencial.

Clubes de futebol e cozinhas comunitárias têm uma espécie de magia que as assembleias municipais raramente alcançam. Ficas ombro com ombro, não cara a cara. Fazes uma tarefa, passas a bola, lavas a loiça. As opiniões vêm à tona e depois voltam a afundar. O resultado partilhado - uma arca cheia para famílias ali ao fundo da rua, um jogo ganho por 2–1 à chuva - fica como memória, em vez do sarcasmo.

Quando a política volta a ser local

Newham organizou assembleias de cidadãos sobre escolhas grandes, não como uma simples sondagem, mas como um mini-estágio em decisão coletiva. As pessoas são pagas pelo seu tempo - e isso conta - e ouvem especialistas, discutindo depois com cuidado. Sentei-me no fundo de uma delas e senti o alívio na sala quando uma mulher de blusa florida disse: “Mudei de ideia.” Ninguém se escandalizou, porque ali era normal ser alguém que pode ser convencido. Imagina levar essa norma de volta para a internet.

Camden tentou algo parecido com a sua Comissão de Renovação, chamando vozes improváveis - proprietários de negócios, técnicos de juventude, artistas - para desenharem prioridades pós-pandemia. A “democracia em kit” de Frome já foi tão falada que quase soa a conto de fadas, mas o funcionamento é deliciosamente aborrecido. Agendas curtas. Objetivos claros. Muito chá. E objetivos suficientemente locais para que as pessoas vejam as suas impressões digitais no resultado duas semanas depois, não num ciclo eleitoral distante.

A ideia não é que o localismo resolva tudo. É que a proximidade obriga à complexidade. A pessoa que te irrita politicamente também gere o banco alimentar, ou conhece de cor o buraco na estrada de que te desviaste esta manhã. O respeito entra de lado quando ficas preso no mesmo elevador.

O que podemos mesmo fazer sem revirar os olhos

Sejamos francos: ninguém faz isto todos os dias. Não organizamos tertúlias entre a hora de deitar as crianças e a loiça por lavar. O que dá para fazer é encaixar micro-pontes na semana, sem alarido. Trocar um link por uma pergunta. Perguntar a um colega: “Qual é a parte disto que te tira o sono?” - e esperar cinco segundos completos antes de responder. Parece banal até se experimentar.

Já vi uma troca de livros na rua fazer maravilhas. As pessoas escolhem títulos que lhes dizem algo, embrulham-nos em papel pardo, escrevem uma nota a explicar porquê e deixam-nos num banco. As notas são pequenos atos de vulnerabilidade - “O meu pai deu-me isto quando reprovei nos A-levels” - e amolecem o terreno. Não dá para demonizar alguém cujo luto ou orgulho já nos passou pelas mãos. Podemos discordar sem deixarmos de gostar uns dos outros.

O papel dos líderes, grandes e pequenos

Quando líderes admitem incerteza, isso desce por nós como uma mudança no tempo. Um vereador a dizer “Eu estava errado” numa transmissão em direto no Facebook faz baixar os ombros de milhares de pessoas. Editores e influenciadores podem recusar a história fácil do vilão e escolher a história humana, mais complicada. Parece arriscado, porque calor dá cliques, mas há outras moedas: confiança, tempo de permanência, pessoas que voltam porque se sentiram vistas.

Depois existem os micro-líderes que ninguém elege. O administrador do WhatsApp que afasta o grupo de tocas de conspirações com uma fotografia do gato perdido. O pároco que põe um tabuleiro de xadrez à porta da igreja e deixa os adolescentes apropriarem-se dele. O lojista que aprende os nomes. Estas pessoas arredondam as arestas da vida pública, não por nos tornarem iguais, mas por nos lembrarem que estamos aqui, juntos.

As histórias que contamos sobre o outro lado

As histórias solidificam-se e viram hábitos. Se a tua história sobre o outro lado é que eles odeiam o país, ou odeiam os pobres, vais encontrar provas disso em todo o lado. Se a tua história é que eles amam os filhos e o seu canto do mundo e têm medo de perder o controlo, também vais encontrar provas disso. A diferença não é ingenuidade; é estratégia. Estás a escolher o mapa que queres levar, sabendo que o território é mais emaranhado do que qualquer um deles.

Há disciplina nisto. Antes de carregares em partilhar, pergunta: eu diria isto cara a cara, à mesa, com talheres entre nós? Antes de humilhares alguém, pergunta: qual é a versão mais gentil desta piada? Antes de bloqueares, pergunta: haverá um limite mais discreto que eu possa impor? Às vezes a resposta é não. A segurança e a sanidade contam mais do que a civilidade quando há dano real. Mas, na maior parte das vezes, existem escolhas mais suaves - e custam menos do que tememos.

O jogo longo

A polarização cresceu por muitas razões - economia, media, identidade, solidão - e não baixa por decreto. A boa notícia é que temos margem de manobra em escalas pequenas. Os grupos que resultam não fazem desaparecer as discordâncias por magia; constroem rotinas que as aguentam sem estilhaçar. Criam mais pontos de contacto do que pontos de conflito, mais tarefas partilhadas do que opiniões “quentes” partilhadas.

O que começa com um crachá escrito à mão ou uma escada emprestada pode tornar-se em algo mais sólido: uma câmara municipal que escuta, uma redação que resiste ao calor barato, um chat de família que não termina em silêncio. O trabalho é comum - por isso é que funciona. E há um prazer deliciosamente subversivo em recusar os papéis que a internet nos atribuiu. Da próxima vez que os contentores tilintarem e um comentário ficar suspenso no ar húmido, experimenta fazer uma pergunta curiosa. Podes surpreender-te com quem responde - e com a leveza com que a sala aquece quando isso acontece.

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