O cancro da mama é, a nível global, o tipo de cancro mais frequente nas mulheres. Depois da cirurgia, surge muitas vezes a grande dúvida: ainda é mesmo necessária quimioterapia - ou estará a causar mais danos do que benefícios? Uma equipa de investigação do Technion, em Israel, desenvolveu agora um modelo de IA para tornar essa decisão muito mais precisa.
Porque é tão delicada a pergunta “quimioterapia: sim ou não?”
Após uma operação ao cancro da mama, definir o plano de tratamento seguinte é uma das tarefas mais complexas para os oncologistas. A incerteza é particularmente comum nos tumores hormonodependentes e HER2-negativos - que representam cerca de 70% dos aproximadamente 2,3 milhões de novos casos no mundo.
Há dois riscos opostos que pesam na decisão:
- Algumas mulheres fazem uma quimioterapia exigente sem ganharem um benefício real de sobrevivência.
- Outras teriam vantagem com a quimioterapia, mas não a recebem porque o seu risco é avaliado como mais baixo do que é na realidade.
Para reduzir este dilema, muitas unidades recorrem a testes genéticos específicos, como o Oncotype DX. Estes testes medem a actividade de determinados genes no tecido tumoral para estimar melhor o risco de recidiva. O entrave é significativo: custam cerca de 3.500 dólares americanos por doente, demoram vários dias e só estão disponíveis em parte das unidades hospitalares a nível mundial.
"Uma imagem digital do tecido que já foi removido custa muitas vezes menos de um euro - o teste genético custa mil vezes mais."
Em países com orçamentos de saúde mais limitados, estas análises genéticas acabam, por isso, fora do alcance de muitas doentes. Nesses contextos, a decisão fica frequentemente dependente sobretudo da experiência clínica do médico - e de toda a margem de incerteza que isso implica.
Como uma nova IA lê cortes de tecido como um “patologista digital”
É precisamente aqui que entra a tecnologia do Technion. Em vez de pedir mais um teste laboratorial, a equipa utiliza algo que já faz parte do processo de diagnóstico do cancro da mama: cortes histológicos em lâminas de vidro, corados com hematoxilina-eosina.
Na prática, o procedimento é surpreendentemente simples:
- A amostra já existente é digitalizada com um scanner de alta resolução.
- As imagens são processadas por um modelo de deep learning, previamente treinado com milhares de casos.
- A IA avalia inúmeros padrões microscópicos no tumor e no tecido circundante.
- No final, é produzido um score entre 0 e 100, que reflecte o risco de recidiva e o potencial benefício da quimioterapia.
Enquanto a observação humana tende a focar-se sobretudo no tamanho, na forma e na distribuição das células tumorais, o algoritmo capta sinais muito mais subtis. Entram em jogo características de vasos sanguíneos, do tecido conjuntivo e do ambiente imunitário em redor do tumor - elementos que os patologistas conseguem ver, mas que não conseguem quantificar com este nível de detalhe.
"A IA não ‘lê’ os genes; lê o próprio tecido - de forma semelhante a olhar para a cor dos olhos em vez de decifrar o ADN num laboratório."
O que revela o estudo com mais de 10.000 doentes
Para validar o sistema, o grupo recorreu a dados do grande estudo TAILORx. Nesse estudo, mais de 10.000 mulheres com cancro da mama hormonodependente e HER2-negativo foram acompanhadas durante anos. Em 8.284 casos existiam dados adequados para esta análise.
Principais conclusões:
- Os scores gerados pela IA ficaram muito próximos dos valores do Oncotype DX.
- A maioria dos tumores com risco genético elevado foi identificada correctamente.
- A avaliação não se limitou ao risco de recidiva: também indicou quais as mulheres que, na prática, beneficiaram de quimioterapia.
Um ponto relevante é que o modelo foi treinado e validado com dados de diferentes unidades em Israel, nos EUA e na Austrália - com equipamentos laboratoriais e populações de doentes distintos. Ainda assim, o desempenho manteve-se notavelmente consistente, independentemente do sistema de saúde onde os dados foram recolhidos.
Menos sobretratamento, mas também menos subtratamento
Segundo os autores, o score pretende sobretudo evitar dois erros: quimioterapia a mais de um lado e terapêutica insuficiente do outro. Em particular, as mulheres após a menopausa poderão beneficiar, já que em estudos é frequente observar-se, neste grupo, um ganho mais baixo com quimioterapia.
A visão apresentada pelos investigadores inclui:
- Doentes com um score de IA muito baixo poderem, em muitos casos, dispensar a quimioterapia e receber “apenas” hormonoterapia.
- Mulheres com score claramente elevado serem encaminhadas de forma direccionada para um tratamento mais intensivo - mesmo quando os factores clássicos parecem inicialmente pouco preocupantes.
- Doentes mais jovens, cujo risco hoje é por vezes subestimado, poderem ser identificadas mais cedo.
"O objectivo não é, em geral, fazer menos quimioterapia, mas sim a quimioterapia certa para as doentes certas."
Porque é que esta IA pode ser decisiva a nível mundial
Face aos testes genéticos, esta abordagem reúne várias vantagens:
| Aspecto | Teste genético (p. ex., Oncotype DX) | IA em imagens de tecido |
|---|---|---|
| Custo por doente | cerca de 3.500 dólares americanos | captação digital e tempo de computação, geralmente na ordem de poucos euros |
| Tempo até ao resultado | vários dias | possível em minutos |
| São necessárias amostras adicionais? | sim | não, bastam os cortes já existentes |
| Acesso em países mais pobres | muito limitado | viável com um scanner simples e Internet |
Em países com menos recursos, isto pode alterar profundamente a forma como se decide a terapêutica. Em vez de esperar semanas por laboratórios especializados, hospitais regionais poderiam rodar as lâminas, digitalizá-las e carregar os dados. O algoritmo calcula o score e o oncologista discute com a doente o que isso implica.
O lado menos visível: uma “caixa negra” poderosa, mas opaca
Apesar de os resultados serem impressionantes, o sistema continua a ser uma “caixa negra”. Não é possível explicar com detalhe porque é que a IA atribui, num caso concreto, um score de 23 ou de 78. O modelo integra milhares de características visuais, mas isso não se traduz de forma directa nas categorias médicas tradicionais.
É por isso que os próximos passos já estão definidos. Estão planeados estudos no Brasil e na Índia para testar o modelo de forma prospectiva: a IA faz uma recomendação e, depois, acompanha-se a evolução das doentes nos anos seguintes. Só se o benefício se confirmar nesses cenários fará sentido uma adopção alargada em orientações clínicas e na prática hospitalar.
Mantém-se ainda a questão da responsabilidade: quem responde se uma mulher, com base no score, prescindir da quimioterapia e mais tarde tiver uma recidiva? Por esse motivo, muitas especialistas e muitos especialistas defendem que a IA não deve ser uma instância única de decisão, mas antes uma ferramenta robusta integrada num processo conduzido pelo médico.
O que as doentes já podem retirar disto hoje
Por agora, o sistema não é um padrão em hospitais alemães. Ainda assim, a evolução aponta claramente para onde se caminha: decisões mais personalizadas em vez de recomendações de quimioterapia “por defeito”. Quem estiver a ponderar se a quimioterapia faz sentido pode abordar, na consulta com a médica ou o médico assistente, perguntas como:
- Que factores, no meu caso, favorecem a quimioterapia e quais jogam contra?
- Foi ou será considerado um teste genético como o Oncotype DX?
- Existem estudos em que eu possa eventualmente ser incluída e que testem decisões apoiadas por IA?
- Em quantos pontos percentuais é que a quimioterapia altera a minha prognose a longo prazo?
A última questão, em particular, ajuda muitas pessoas a decidir de forma alinhada com os seus valores. Um benefício teórico de dois a três por cento pode parecer compensador para algumas doentes e pouco relevante para outras - sobretudo quando estão em causa efeitos adversos importantes.
Enquadramento: o que significa, na prática, “risco de recidiva”?
Quando os investigadores falam em risco de recidiva, referem-se, na maioria das vezes, à probabilidade de o cancro regressar ou de formar metástases no prazo de dez anos. Um risco de 10% significa: em 100 mulheres numa situação comparável, 10 terão problemas novamente mais tarde e 90 não.
A quimioterapia e a hormonoterapia reduzem esse risco - por vezes mais, por vezes menos, conforme o ponto de partida. A nova IA procura captar melhor esse ponto de partida individual. Não elimina o facto de o cancro continuar a ser uma questão de probabilidades, mas pretende tornar essas probabilidades muito mais exactas.
Para a Medicina, isso seria um avanço relevante: menos programas padrão exigentes e mais estratégias ajustadas ao caso. Se a tecnologia cumpre essa promessa é algo que os próximos anos terão de confirmar. Ainda assim, já é visível que a patologia digital e a inteligência artificial irão alterar de forma perceptível o dia-a-dia das reuniões multidisciplinares de tumores - incluindo no espaço de língua alemã.
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