Saltar para o conteúdo

Um grande estudo sueco do Instituto Karolinska liga evitar o sol a vida mais curta

Mulher a deitar lixo no caixote num parque urbano com árvores e edifícios ao fundo.

Um grande estudo sueco veio agora baralhar uma mensagem de saúde muito repetida.

A investigação indica que quem evita por completo a luz solar pode acabar por pagar um custo invisível mais tarde: uma vida mais curta, em grande parte associada a doenças do coração e dos vasos sanguíneos.

Um estudo de longa duração que põe em causa um aviso de saúde conhecido

Entre 1990 e 2010, investigadores do Instituto Karolinska, na Suécia, acompanharam 29,518 mulheres com idades entre os 25 e os 64 anos. No início, cada participante respondeu a um questionário detalhado sobre os seus hábitos ao sol.

Com base nessas respostas, as mulheres foram distribuídas por três grupos:

  • As que evitavam ativamente o sol
  • As que tinham uma exposição solar moderada
  • As que eram expostas ao sol com frequência

Ao longo de duas décadas, a equipa registou quem morreu e quais as causas. Para não confundir efeitos do estilo de vida, os resultados foram ajustados a variáveis como peso, atividade física, escolaridade e consumo de álcool.

"As mulheres que evitavam sistematicamente o sol tinham aproximadamente o dobro do risco de morrer por qualquer causa, em comparação com as que procuravam o sol."

Os dados, publicados no Jornal de Medicina Interna, desenham um padrão marcante: a evasão total ao sol esteve associada a um aumento claro da mortalidade global.

Evitar o sol vs. fumar: uma comparação impressionante

Houve um resultado que chamou a atenção muito para além da Suécia. Entre as não fumadoras, as mulheres que se afastavam completamente do sol apresentaram uma esperança de vida semelhante à de fumadoras que, por outro lado, se expunham regularmente à luz solar.

"Nesta coorte, nunca apanhar sol apresentou um risco de morte da mesma ordem de grandeza que ser fumadora ativa."

Em termos estatísticos, as mulheres com menor exposição solar perderam entre 0.6 e 2.1 anos de vida face às que apanhavam sol com mais frequência. Isto não significa que evitar a praia seja tão perigoso como fumar um maço por dia em todos os contextos, mas mostra a dimensão desta associação dentro deste grupo específico.

Os autores sublinham que se trata de um estudo observacional. Ou seja, identifica padrões, mas não prova que a falta de sol, por si só, provoque morte prematura. Podem existir fatores não medidos a influenciar os resultados. Ainda assim, mesmo após vários ajustes, a relação entre evitar o sol e maior mortalidade manteve-se robusta.

Porque é que algum sol pode proteger a saúde

Vitamina D e mais do que isso

O suspeito mais óbvio é a vitamina D. Quando os raios UVB atingem a pele, iniciam a produção desta substância com ação semelhante a uma hormona, importante para os ossos, para o sistema imunitário e, possivelmente, para a saúde cardiovascular.

Níveis baixos de vitamina D têm sido associados a maior risco de fraturas, infeções e algumas doenças crónicas. Em países do Norte, onde no inverno os dias são curtos e o sol fica baixo no horizonte, a carência é frequente.

No entanto, a equipa sueca não atribuiu a explicação apenas à vitamina D. Destacou também outros mecanismos que podem ajudar a perceber porque é que uma exposição solar regular e moderada pode ser protetora.

Fator relacionado com o sol Possível efeito na saúde
Produção de vitamina D Apoia os ossos, a função imunitária e pode influenciar a saúde cardíaca e metabólica
Libertação de óxido nítrico na pele Pode reduzir a tensão arterial e melhorar a função dos vasos sanguíneos
Alinhamento do ritmo circadiano A luz do dia ajuda a regular o sono, as hormonas e o metabolismo

A luz solar desencadeia a libertação de óxido nítrico a partir da pele, o que pode dilatar os vasos sanguíneos e contribuir para baixar a tensão arterial. Além disso, a luz do dia serve de âncora ao relógio interno do organismo - o ritmo circadiano - influenciando a qualidade do sono, os ciclos hormonais e o apetite.

A latitude escandinava faz diferença

A latitude da Suécia acrescenta um fator importante. Os invernos são longos, os dias encurtam e a luz solar torna-se fraca durante meses. Nessas condições, evitar completamente o sol pode fazer descer mais a vitamina D e desregular o ritmo circadiano de forma mais intensa do que em países com mais sol.

Os autores sugerem que os riscos de uma evasão rigorosa ao sol podem ser particularmente elevados em regiões setentrionais, enquanto o equilíbrio entre riscos e benefícios poderá ser diferente mais perto do equador, onde a exposição a UV é muito mais forte.

Doença cardiovascular: o principal motor das mortes adicionais

Quando a equipa analisou com detalhe as causas de morte, uma categoria destacou-se como a grande responsável pelo risco acrescido: a doença cardiovascular. As mulheres que evitavam o sol apresentaram maior probabilidade de morrer por enfarte, AVC e insuficiência cardíaca.

"As mortes adicionais associadas a evitar o sol deveram-se sobretudo a problemas do coração e dos vasos sanguíneos, e não ao cancro da pele."

Este padrão é compatível com a hipótese de que a luz solar, através de vias ligadas à tensão arterial e ao metabolismo, possa ter um papel discreto, mas relevante, na proteção do sistema cardiovascular.

O paradoxo do cancro da pele

Do outro lado da balança está o cancro da pele. No mesmo estudo, as mulheres com maior exposição solar registaram mais cancros cutâneos, incluindo melanoma, a forma mais temida.

Ainda assim, o risco total de morrer por qualquer causa foi inferior ao das mulheres que ficavam na sombra. Nesta coorte sueca, os benefícios observados do ponto de vista cardiovascular parecem ter superado o aumento do peso do cancro da pele.

Na Suécia, o melanoma continua a ser relativamente raro, e a deteção tende a ocorrer cedo, o que melhora muito a sobrevivência. Já as doenças cardiovasculares, por contraste, causam um grande número de mortes, muitas vezes com pouco aviso.

Os autores são prudentes na interpretação. Estes resultados não servem de justificação para apanhar sol até queimar, nem para dispensar protetor solar durante férias ao sol forte do meio-dia.

"Os dados apontam para um caminho intermédio: exposição regular e moderada, sem queimaduras, parece oferecer o melhor compromisso para a saúde."

Como pode ser uma exposição solar “moderada”

As recomendações de saúde pública variam, mas muitos dermatologistas e endocrinologistas descrevem algo semelhante ao seguinte para adultos de pele clara em climas temperados:

  • Exposições curtas diárias do rosto, braços e parte inferior das pernas, ao fim da manhã ou durante a tarde
  • Parar bem antes de a pele começar a avermelhar ou a ficar quente
  • Usar protetor solar em atividades prolongadas ao ar livre, sobretudo no verão
  • Utilizar chapéu e roupa quando os níveis de UV são elevados ou perto de superfícies refletoras como água e neve

A pele mais escura necessita de mais sol para produzir a mesma quantidade de vitamina D. Por isso, pessoas de origem africana, caribenha ou sul-asiática a viver no Norte da Europa ou na América do Norte podem estar em maior risco de carência e beneficiar de aconselhamento específico ou de suplementos.

Termos-chave e cenários do dia a dia

O que significa realmente “mortalidade por todas as causas”

O estudo sueco centra-se na “mortalidade por todas as causas”. Este termo, apesar de parecer simples, refere-se ao risco de morrer por qualquer motivo durante o período de seguimento, e não apenas por uma doença em particular.

Porque é que isto importa? Porque oferece uma visão global. Um comportamento pode aumentar o risco de uma condição e, ao mesmo tempo, reduzir o de outra. A mortalidade por todas as causas mostra qual desses efeitos acaba por prevalecer na vida real.

Como isto pode acontecer na vida quotidiana

Imagine duas trabalhadoras de escritório em Estocolmo. Uma vai a pé para o trabalho sem se cobrir de forma obsessiva, adapta a roupa às estações e evita queimaduras. A outra usa transportes subterrâneos, passa o almoço no interior e mantém sempre as persianas fechadas em casa, saindo sobretudo ao final do dia.

Ambas podem acreditar que estão a proteger a saúde, mas este estudo sugere que a segunda mulher - que raramente apanha luz do dia - poderá enfrentar, a longo prazo, um risco superior de doença cardiovascular e de morte mais precoce, mesmo que a pele se mantenha pálida e sem manchas.

No Reino Unido ou no norte dos EUA, um padrão semelhante pode aplicar-se, embora os níveis de UV e os hábitos culturais sejam diferentes. Pessoas que trabalham por turnos noturnos, que passam muitas horas em espaços interiores ou que evitam consistentemente a luz do dia por razões estéticas podem, sem se aperceber, estar a inclinar a balança contra a saúde do coração.

Equilibrar riscos: combinar hábitos ao sol com outros fatores de estilo de vida

A exposição solar é apenas uma peça de um puzzle maior que inclui tabaco, alimentação, exercício, sono, consumo de álcool e genética. A comparação com o tabaco dá força aos resultados suecos, mas não reduz em nada os malefícios de fumar.

Alguém que fume e, além disso, evite o sol ficará quase de certeza num patamar de risco muito mais elevado do que uma não fumadora com exposição solar sensata. Por outro lado, uma pessoa com forte historial familiar de melanoma pode optar por uma proteção cutânea mais rigorosa e depender mais de suplementos de vitamina D e de atividade ao ar livre na sombra.

Para muitas pessoas em países do Norte, uma estratégia prática pode passar por combinar exposições diárias curtas ao sol, movimento regular no exterior, vigilância da pele para detetar sinais novos ou alterações em sinais existentes e a conversa com um médico sobre testes de vitamina D nos meses mais escuros.


Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário