Vacas não parecem, à primeira vista, grandes responsáveis pelo problema climático, mas o seu impacto é maior do que muita gente imagina.
Quando o gado digere a erva, liberta metano - um gás que, no curto prazo, retém muito mais calor na atmosfera do que o dióxido de carbono.
Com o tempo, este efeito acumula-se. A Agência Internacional da Energia estima que o metano tenha contribuído para cerca de 30% do aumento da temperatura global desde a Revolução Industrial.
Há anos que agricultores e cientistas procuram soluções. À primeira vista, a ideia é simples: alterar a alimentação das vacas para reduzir o gás que produzem.
O problema complica-se rapidamente, sobretudo em explorações de pastoreio ao ar livre, onde os animais percorrem áreas extensas e comem de forma livre. Não é possível controlar cada dentada. É aqui que abordagens novas começam a fazer diferença.
As algas entram na conversa
Uma proposta tem ganho espaço de forma discreta: as algas. Não as que aparecem na praia, mas uma variedade vermelha específica chamada Asparagopsis. Esta alga contém um composto natural, o bromoformo, que pode diminuir a produção de metano durante a digestão.
Entretanto, investigadores testaram se esta abordagem funciona fora de parques de engorda com dietas rigidamente controladas. O objectivo foi avaliar condições reais de pastoreio, em que as vacas vivem e se alimentam como habitualmente.
A equipa contou com a doutoranda Kellie Wenham e a Dra. Mariana Caetano, da Escola de Ciências Animais e Veterinárias da Universidade de Adelaide.
O que o estudo encontrou
Ao longo de oito semanas, o estudo acompanhou 80 vacas Angus prenhas e em lactação. Um grupo recebeu um suplemento feito com óleo de extracto de bromoformo. O outro grupo não recebeu.
Os resultados foram claros. “Ao longo do ensaio de oito semanas envolvendo 80 vacas Angus, as emissões de metano foram reduzidas entre 49% e 77 % nas vacas que receberam o suplemento”, afirmou Wenham.
“Trata-se de uma redução substancial, sobretudo num sistema extensivo em que pode ser difícil assegurar uma suplementação consistente.”
Este nível de redução é difícil de ignorar, especialmente em sistemas de pastoreio, onde a regularidade da suplementação costuma ser o maior obstáculo.
E quanto aos vitelos?
Qualquer alteração num efectivo reprodutor levanta uma pergunta básica: o que acontece aos vitelos?
Os investigadores acompanharam este ponto de perto. Os vitelos nascidos de vacas suplementadas cresceram normalmente. O ganho de peso do nascimento até aos 150 dias manteve-se dentro do esperado, sem sinais de abrandamento do desenvolvimento.
“Isto é fundamental. Em sistemas de reprodução, não se trata apenas da vaca - é preciso ter confiança de que não existem consequências não intencionais para a descendência”, disse a Dra. Caetano.
Esta garantia é relevante para produtores que dependem de vitelos saudáveis para renovar o efectivo e assegurar rendimento.
Menos alimento, desempenho semelhante
Houve ainda outro pormenor que chamou a atenção. As vacas que receberam o suplemento ingeriram ligeiramente menos alimento, mas mantiveram o peso corporal estável.
Isto sugere uma possível via de poupança. A alimentação é um dos maiores custos na produção de bovinos, sobretudo quando o tempo é seco ou a pastagem é escassa.
“Num contexto comercial, uma redução da ingestão sem perda de produtividade pode traduzir-se em poupanças significativas”, assinalou a Dra. Caetano.
“Este é um incentivo importante para adoptar o bromoformo, para além dos benefícios ambientais.”
Menos emissões e menores custos raramente surgem em simultâneo. Quando acontece, o sector presta atenção.
Nem tudo está fechado ainda
O estudo também teve em conta os detalhes técnicos. Algumas vacas apresentaram alterações na química sanguínea, incluindo casos pontuais de alcalose metabólica ligeira. As variações mantiveram-se dentro de intervalos aceitáveis, mas levantaram questões sobre a utilização a longo prazo.
“Estas alterações estiveram, em geral, dentro de intervalos aceitáveis, mas evidenciam a necessidade de mais investigação sobre impactos na saúde a longo prazo e sobre a dosagem óptima”, disse a Dra. Caetano.
Nos vitelos observaram-se igualmente pequenas alterações em marcadores sanguíneos, embora dentro de valores normais. Não houve sinais alarmantes, mas o suficiente para manter uma postura prudente.
Reduzir metano em sistemas de pastoreio
Grande parte do trabalho anterior sobre suplementos para reduzir metano centrou-se em parques de engorda, onde os animais consomem dietas medidas. É mais fácil de gerir, mas representa apenas uma parte da indústria bovina.
Este estudo distingue-se por testar a solução em pastoreio, onde o gado circula livremente e a alimentação é mais difícil de controlar.
“Os nossos resultados mostram que suplementos à base de bromoformo podem ser eficazes para lá dos parques de engorda, incluindo em sistemas baseados em pastagens que dominam a produção australiana de carne de bovino”, afirmou a Dra. Caetano.
Limitações do estudo e investigação futura
Os dados apontam para uma ferramenta promissora, mas não encerram o tema.
Continuam em aberto questões sobre como fornecer o suplemento de forma consistente em campo aberto, que quantidade utilizar e como os animais reagem durante períodos mais longos.
“Há aqui um potencial real, mas a adopção dependerá de garantir que a abordagem é segura, prática e custo-efectiva para os produtores”, disse Wenham.
“Se conseguirmos acertar esse equilíbrio, isto poderá ser uma ferramenta poderosa para ajudar a indústria pecuária a reduzir a sua pegada ambiental.”
Esse equilíbrio determinará se soluções baseadas em algas ficam confinadas a artigos científicos ou passam a integrar a prática diária nas explorações.
O estudo completo foi publicado na revista Frontiers em Ciência Animal.
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